sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Acordei com o ventilador de teto girando lentamente enquanto pensava como dar um jeito na minha vida. Claro, não conseguia achar uma resposta, e na realidade nem queria, preferia deixar as coisas assim, me davam menos trabalho. Me levantei, botei uma camisa e uma calça e fui ler um livro, coisa que não fazia a tempos.

"Jamais ponha na frente dos seus interesses aquilo que tu mais desejas". O que? Que merda é essa? Me pergunto quem foi o retardado que escreveu essas baboseiras, pensei enquanto atirava aquele livro estúpido longe. Logo em seguida peguei uma whisky na geladeira e fiquei bebendo entre murmúrios do tipo "Que droga eu estou fazendo..." e "O que está acontecendo comigo?", até que finalmente quebrei a garrafa na parede e peguei uma navalha e fiquei entalhando escritas indecifráveis na cadeira em que estava sentado, até que meu amigo chegou no apartamento e viu tudo bagunçado e começou a gritar: "QUE PORRA TU TÁ FAZENDO CARA?"

Agarrei a navalha em cima da mesa, cravei no seu ombro e chutei sua barriga. "Cala a boca, tu sempre tá me irritando e me cobrando, eu não aguento mais isso." Corri e peguei um revólver da gaveta, engatilhei e falei: "Isso acaba agora". Ouviu-se um estouro, um grito e mais nada. A escuridão havia tomado conta do quarto, e Gustavo jazia morto no chão.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Histórias

Carregando aquela faca enferrujada e suja pelo sangue seco de outras pobres vítimas, ele andava arrastando o galão de gasolina no chão, com o sobretudo marrom sujo de poeira, as calças rasgadas cada vez mais sujas com o passar do tempo. "Já era hora de terminar o dia por alí", ele pensou, mas algo dentro de sí gritava cada vez mais alto para ele continuar, que isso tudo mal havia começado. É claro que ele obedeceu a segunda voz, afinal em sua mente ainda  faltavam muitas coisas a serem feitas...e uma delas estava prestes a ser completa.

Ao avistar uma jovem parada no ponto de ônibus, ele correu como nunca, embainhou sua faca e levantou o galão de gasolina em um golpe certeiro na nuca da garota, e sem que ela pudesse ao menos ver o que a atingiu, ele puxou a faca e cravou em sua perna, rasgando aquela carne macia enquanto ele via o desespero no rosto da jovem. Ela gritava e batia nele, mas de nada adiantava, ele puxou a faca pra cima cortando sua pele a abrindo feridas que faziam sangue jorrar. Enquanto isso ele com a outra mão despejava gasolina dentro dos ferimentos e cravava a faca por todo o corpo da garota, ela havia desistido de se debater e gritar, ou apenas não conseguia mais, o que fazia com que ele apenas tivesse mais prazer em rasgar a carne da pobre garota. Por fim ele abriu seu peito e quebrou suas costelas, arrancou seu estômago cortando a barriga dela e cortou os lábios daquela doce jovem.

Quando se levantou, ele viu que havia um casal encarando a situação, pálidos de horror enquanto ele ria, sujo de sangue e gritando "Os mortos não têm histórias pra contar". Ele se virou, pegou um fósforo e jogou no corpo da mulher, se ajoelhando rindo da sua horrenda morte, e sendo consumido pelo fogo enquanto sua risada cessava e deixava reinar o silêncio da noite.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Banquete de orquídeas canibais

  Aquele maldito jardim. De novo. aquele perverso, horrível, encantador e lindo jardim. Ainda que me perguntasse o por que caralhos eu estava percorrendo aquele caminho repetidamente, mesmo odiando e adorando aquele lugar, não achava resposta na minha mente que me convencesse o suficiente do real por que de eu estar ali. Mas no fundo, acho que não importava mais àquela altura do campeonato o que eu estava fazendo ou onde estava. Voltando ao assunto, eu estava caminhando naquele maldito jardim, ouvindo o uivo solitário dos meus cachorros procurando o cadáver putrefato daquela que um dia eu amei, o que pode parecer doentio, maluco ou os dois juntos, mas como havia dito: eu não me importo...Não mais.

Lá estava eu. Percorrendo caminhos sem sentido sob a luz do luar e o vento cortante rasgando minha pele, ouvindo o apenas a chuva caindo na terra e os cães correndo e a procurando, sem nenhum sentido nem propósito, eu me perguntara o que eu estava fazendo com a minha vida. E as orquídeas ao meu redor? Deus, aquelas orquídeas desgraçadas, encarando-me como se fossem predadores prontos pra pular em meu pescoço, rasgar a minha carne em tiras e beber o sangue alojado por entre minhas artérias... isso pode parecer estranho, mas sim, elas me dão muito medo, um medo mortal, por assim dizer. Mas não, eu tinha que acabar com isso de uma vez. Eu corri, corri e corri, atravessei todo o jardim, derrubei os cachorros inúteis no chão, e encontrei uma fonte, uma fonte de água pura e cristalina, com o cadáver de Íris apodrecendo e sendo corroído por vermes alí mesmo, eu não aguentava essa visão, eu não conseguia, eu simplesmente gritei, gritei como um louco, derrubei aquela fonte, rasguei as folhas, peguei um isqueiro e queimei tudo que pude, mas de nada adiantou. Elas já estavam ali, elas já se deleitaram com Íris. Era tarde demais. Nós morremos em vão.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pescadores de Almas

Já havia cerca de um mês desde que a vida quase acabara para mim. Passado um susto no qual quase fui embora deste mundo, a pessoa a quem eu mais nutria amor pisoteou-me como um nada, minha família abandonou-me para viver sozinho e encarar a realidade. Já não era sem tempo que mais coisas ruins ou boas (a essa altura já nem me importava mais o que acontecia, ou como acontecia) começassem a aparecer na minha vida.

Eis que eu estou caminhando pelo pier, cerca de 3 horas da madrugada, ouvindo só o mar batendo nas duras estacas de madeira cravadas na areia, e vejo um homem no horizonte. lá no fim do pier estava ele. Eu não sabia o que ou por que ele estava ali, e acho que no fundo queria saber, por isso fui falar com ele. "Ei, o que diabos um senhor de idade faz na beira de um pier pescando às 3 da manhã de uma porra de sexta feira?" "Pergunto o mesmo a você, o jovem que está perambulando sozinho pela madrugada." Respondeu-me ele com um sorriso. "É, admito que me pegou nessa." Falei enquanto ia sentando ao seu lado e oferecendo-o uma garrafa de vinho. "Não, obrigado, já não bebo há anos." "Bem, você que sabe." Falei, dando mais um gole na garrafa, que foi interrompido pela brusca fala dele, dizendo: "Pescando." "O que?"
"Você me perguntou o que eu estava fazendo. Estou pescando." "É....e pegou algo?" "Muitas." "Muitas o que?" "Ah, você não iria entender, é coisa demais pra ser explicado...mas algo me diz que você já sabe, só não descobriu ainda." "O que?" "Almas. é o que eu pesco." "Como?" "Isso não vem ao caso, só me diga: o que lhe traz aqui?" "Bem...minha vida tá horrível, eu só saí pra um passeio." "E nunca tentou resolver os problemas?" "Não tem sentido fazer isso, só vem mais problemas ainda."

Em um flash, zunindo como o vento uivante, um carro passou com a luz ligada, e por um breve momento pude ver seu rosto: ele era apenas ossos. "Mas que merda é essa?" "Ah, eu disse que você não entenderia no final das contas, apesar de não ter descoberto" "O que você est-AAAAAAAAAAAAAAAGH" Um grito ecoou por toda a rua. não tinha mais nenhum som, nem gritos, nem nada. A morte não consegue pescar as almas dos que já morreram por dentro.